quarta-feira, 13 de julho de 2011

Impacto da Pós-Modernidade na Liturgia Cristã

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Escrito por Alessandro Rocha   
Pós-Modernidade, então, é sujeito e objeto num processo dialético de construção da sociedade. É uma espécie de líquido amniótico que nutre a sociedade na gestação de novos valores, ou de novos posicionamentos frente a valores antigos. O que estaria incólume neste processo de construção e reconstrução cultural? Que instituição poderia se apresentar como supra-histórica a fim de reivindicar uma intocabilidade da cultura em seus valores e conceitos? Uma resposta séria, sob qualquer ponto de vista, deve ser que nenhuma instituição passa por uma virada cultural sem que seus conteúdos e formas sejam discutidos, remodelados, ou então, drasticamente modificados.
Nossa intenção ao constatar a amplitude de penetração social da Pós-Modernidade, não é de analisá-la nas diversas instituições que formam a sociedade, mas antes, de sedimentar nossa reflexão sobre uma instituição que historicamente pretenciona status de intocabilidade dado seu caráter e peculiaridade transcendentes. Nem mesmo tomaremos todos os elementos da religião em nossa análise, deter-nos-emos naquele que julgamos ser o reflexo evidente da teologia latente do cristianismo, a saber, a liturgia. Nossa tese, portanto, não toma a liturgia como mero conjunto de elementos celebrativos, mas como “realidade teologal e não apenas antropológica, social, histórica ou lingüística. Portanto, o fazer da ciência litúrgica é um fazer teológico: procura compreender, analisar, ordenar logicamente os dados da Revelação, reinterpretá-los a partir de cada novo momento ou situação histórica”.[1]
Portanto ao falarmos de impacto da Pós-Modernidade sobre a liturgia cristã estamos, ao mesmo tempo, falando de um impacto sobre a própria teologia, que é em última análise, a forma como esta tradição religiosa se enxerga na sociedade em que se encontra. Falar da liturgia cristã na Pós-modernidade consiste, portanto, em olhar para as relações que as igrejas estabelecem com seus fiéis e vice-versa.
Historicamente o significado da liturgia advem da prestação de serviços; segundo Hermisten Maia P. Costa[2] este significado passou por uma evolução em quatro etapas: liturgia como serviço prestado voluntariamente à pátria, serviço obrigatório ao Estado, serviços de qualquer natureza e, por fim serviço religioso prestado por sacerdotes a divindades. É-nos possível dizer, a partir da própria história da liturgia, que sua lógica subjacente é a prestação de serviço. O que nos propomos então é esclarecer como a Pós-Modernidade influenciou esta prestação. Isto é, como o deslocamento do eixo Teocêntrico para o Antropocêntrico influenciou na mudança de sujeitos no processo litúrgico.
Buscaremos evidenciar nossa tese propondo que a quarta etapa do processo de evolução da liturgia (serviço religioso) acompanhou o deslocamento do eixo acima citado. Com isto a liturgia que antes era serviço prestado a Deus, agora é serviço que Ele presta aos homens por intermédio das igrejas. Para evidenciarmos esta mudança tomaremos duas características da Pós-Modernidade que se encontram fortemente presentes na liturgia cristã, quer das igrejas neopentecostais (que não sofreram impacto da Pós-Modernidade, pois são “filhas” dela), quer das históricas tradicionais ou pentecostais. Estas características são a mercantilização (fora do mercado não há salvação)[3] e, a funcionalidade como critério teológico que alimenta a lógica do consumismo.
1- Funcionalidade como Critério Teológico: Elemento de legitimação do consumo.
A Pós-Modernidade, como expressão cultural, pode ser evidenciada em diversos segmentos da sociedade e praticamente na totalidade dos seus elementos. No entanto há uma expressão que lhe é bastante peculiar, sobretudo em comparação com a Modernidade. A Modernidade era embalada por certa utopia (dimensão do ideológico) que unia os homens em torno de causas, sendo elas legítimas ou não. A crise da Modernidade, que proporia sua superação, tem como marca principal o deslocamento desta lógica social para uma outra individual.[4]
Este deslocamento de eixo pode ser explicado a partir do deslocamento do núcleo deste sistema. A Modernidade somava o resquício do teocentrismo (mais acentuado no Pré-Modernismo) com o antropocentrismo ideológico (que pretendia a evolução da raça humana). Na Pós-Modernidade o que vemos é um antropocentrismo com acentuado traço de “mercadocentrismo” voraz e extremamente descartável. Como em todas as outras épocas essas mudanças não são manifestações isoladas nem mesmo abstrações acadêmicas, elas são elementos presentes em todas as práticas sociais e, por vezes, pautam-nas.
Mas onde esse deslocamento provoca a tirania da funcionalidade e o domínio do consumo? Se pensarmos de forma global notaremos que na Modernidade as ações eram coletivas, os ideais eram a longo prazo, os bens disponíveis estavam mais equanimente franqueados, e a prática religiosa não era particularizada nem na presença institucional, nem mesmo na possibilidade da devoção pessoal. Todos estes elementos propunham uma relação mais estável do ser humano com o mundo, onde os sistemas proporcionavam certezas duráveis que uma vez assimiladas dificilmente seriam substituídas, não possibilitando então o consumismo de nenhuma espécie.
Com o advento da Pós-Modernidade esta ordem global e, por decorrência a local, foi duramente invertida: não há ideologia, não há sonho global, não há sistemas seguros e portanto não há segurança em sistemas. O ser humano passa a se relacionar com a lógica da instabilidade ontológica, onde o ser não é se não tem. Essa nova ordem que J. B. Libâneo chama de darwinismo social e econômico[5], exige de mulheres e homens a funcionalidade acima de tudo. Produzir mais do que realmente é necessário, gerar uma necessidade por possuir além daquilo que é preciso, reconhecer as pessoas por sua performance neste processo, essa é a lógica global vigente.
Essas mudanças e deslocamentos nos alcançam por intermédio do processo de comunicação midiático e interpessoal. Uma vez que o assimilamos passamos a reproduzi-los. Isso se dá da mesma forma com a religião, só que com um dado novo. Na religião as questões transitórias são revestidas, por seus interlocutores, de caráter sacro. Retomando a especificidade da nossa tese central, diríamos que o cristianismo em geral e sua liturgia em particular, uma vez tendo assimilado essa nova lógica, é por ela mais influenciado do que as demais instituições.
A contundência desta afirmação surge da análise do impacto que a Pós-Modernidade impingiu sobre a liturgia cristã, a ponto de transformá-la em praticamente quase toda a sua totalidade. Como já dissemos, notar esse impacto no neopentecostalismo seria um pleonasmo, visto que ele é fruto direto desta mudança cultural. Portanto, percebemos que onde mais se evidencia esse impacto é no cristianismo histórico, que vem se dobrando sistematicamente à tirania da funcionalidade e do consumo. Se não vejamos: o que é o movimento de crescimento da igreja? Qual o fator de motivação deste crescimento? Quais elementos da teologia servem mais particularmente à expansão proposta por ele?
Aqui tocamos no cerne da nossa discussão. Não nos resta dúvida que é através da liturgia, como realidade teologal e comunicacional, que o cristianismo é alcançado pelos valores externos, e é também por meio dela que ele os internaliza. A liturgia é veículo autorizado de comunicação de verdades. O que é dito num culto tem uma menor probabilidade de ser filtrado pelo sistema crítico de cada pessoa. Esse dado faz dela um instrumento muito perigoso, sobretudo quando lhe falta um tônus crítico e ela se alia à Pós-Modernidade festiva[6], isto é, quando ela passa a legitimar a ordem política do darwinismo social e do consumismo desenfreado.
Pensando então no cristianismo histórico diríamos que sua liturgia, em nome do crescimento a todo custo, está intimamente ligada ao deslocamento social, político e econômico pelo qual passou a Pós-Modernidade. O movimento de crescimento da igreja é um símbolo desse processo, nele a tirania da funcionalidade, que é elevada de conseqüência necessária para a vida da igreja em fator absoluto onde se verifica a plausibilidade deste ou daquela teologia. Isto toca diretamente na liturgia na medida em que é por meio dela que se dá o processo subliminar de convencimento. O culto não é serviço prestado a Deus, mas exatamente o contrário. Para que a igreja cresça os homens precisam ser atendidos em suas necessidades sentidas.
O livro “Celebrando o Amor de Deus” da série Desenvolvimento Natural da Igreja (expressão mais consistente entre os movimentos de crescimento) propõe textualmente o seguinte: “se as pessoas só vêm por obrigação, e não porque estão entusiasmadas, então estamos fazendo algo muito errado, pois no culto não somos nós que servimos a Deus, mas é Deus quem serve a nós. Isto significa que quando eu sair do culto preciso me sentir melhor do que quando entrei”[7]. Percebemos, portanto, que o fator de motivação é o bem estar individual que uma vez atendido pode redundar em crescimento numérico. Esse bem estar precisa ser sentido dominicalmente e, é exatamente aí que percebemos o consumismo sagrado. “Vou ao culto buscar a minha bênção” diriam alguns, “se não a encontro aqui a busco ali”. Para melhor atender a esses clientes os pastores, padres e líderes fazem de tudo para aperfeiçoarem sua performance. As igrejas e os púlpitos se transformam em teatros onde os textos representados devem agradar à platéia pagante, e também em mercado onde bens de consumo (bênçãos) são barganhados[8].
É, sem dúvida, a lógica do mercado pautando a prática religiosa. Por outro lado, esta relação onde as pessoas desejam ser atendidas, serve à criação de sujeitos religiosos que acabam por conduzir suas próprias escolhas. O fato de alguém sair de uma comunidade religiosa que não lhe atende mais pode ser o resultado de um processo de autonomia onde esta pessoa se tornou sujeito de sua própria história. Contudo este efeito é uma ação indireta da religião, pois sua maior ênfase, neste caso, não está na autonomia e sim no individualismo.

2 - Um Novo Rosto Para a Igreja... Clientela ou Comunidade?
Essa condição ambígua em que a Igreja se encontra na pós-modernidade, além de gestar um novo sujeito religioso, por decorrência, gesta também uma outra forma de ser Igreja. Esse processo de gênese é, como já dissemos, ambíguo, mas também dialético. O pastor ou animador entregasse à performance como critério de avaliação de seu ministério, mas também a comunidade eclesial aspira pelo espetáculo fugaz.
Toda essa prática pastoral não pode ser entendida em sua profundidade senão se olhada desde a perspectiva do freqüentador da Igreja. ou por outras palavras, o púlpito deve ser visto também a partir do “banco da Igreja”.
Ao contemplarmos estas duas visões, percebemos um terrível processo de retroalimentação, no qual. Uma prática pastoral, motivada por uma lógica econômica de fundo, vai gerar uma clientela religiosa e não uma comunidade. Esta, por sua vez, vai alimentar aquela  prática pastoral. Pretender determinar o que gerou este processo, seria mais ou menos retomar aquela discussão infantil, quanto, a saber, quem veio primeiro a galinha ou o ovo. Podemos dizer que essa prática pastoral e esta clientela religiosa são fenômenos concomitantes e estão inseparavelmente ligados desde sua origem.
Com o surgimento dessa clientela religiosa percebemos deslocamentos que se desenvolovem como se segue.

2.1 – Da busca da verdade para o desejo místico da experiência.
 Vivemos hoje uma cultura da sensação onde é verdadeiro o que se sente, onde a emoção é a mola propulsora das relações. Em tempos de pós-modernidade o tom é dado pelo místico, experienciado concretamente na experiência.
Essa centralidade da experiência está estampada nas diversas denominações do cristianismo brasileiro (não só dele), sobretudo naquelas que assumem conscientemente os elementos de certa espiritualidade neopentecostal ou carismática.
Não é sem razão que a espiritualidade gestada nesses grupos/movimentos não contempla o silêncio  e a meditação como alguns de seus elementos formadores. Os cultos acontecem à base de adrenalina, fazendo de seus participantes verdadeiros “indiana Jones da fé”, aventureiros ávidos por sensações.
Neste reino das emoções, o trono está reservado para a experiência mística (que se confunde, e faz confundir, com misticismo). Ela se torna não somente o alvo e o centro de toda a  espiritualidade, como também um dos principias alicerces a partir dos quais toda essa clientela religiosa vive. A busca da experiência com o sobrenatural e a posse de certos códigos de linguagem, identifica esses movimentos tanto com o gnosticismo tardio, quanto com as religiões de mistério greco-romanas.
A própria escolha da comunidade que se vai “freqüentar”, passa pela capacidade que esta tem de satisfazer certo conjunto de anseios e demandas. O trânsito acelerado entre as mais diversas comunidades e grupos de oração é inevitável. Quando o poço das experiências vai se esvaziando, busca-se um outro ainda mais borbulhante. É como alguém que se sente num deserto, sofrendo a sequidão existencial, que vendo um oásis, abandona instintivamente o seu quase vazio cantil.
Busca-se desesperadamente  a experiência coma verdade sem se preocupar muito com ela. Importa usufruir emocionalmente da verdade sem se comprometer com as implicações dela decorrentes, pois a experiência se torna a grande verdade.

2.2 – Da conversão profunda para o consumismo superficial.
A conseqüência mais óbvia e imediata desse enfraquecimento do desejo de se buscar a verdade para o prazer obsessivo da experiência, dá-se no âmbito da conversão.
O compromisso último dessa clientela religiosa é com a satisfação da sua necessidade, seja ela de ordem material, espiritual ou emocional. Busca-se a igreja para consumir o que ela tem para oferecer, como se entra numa loja para comprar aquilo que se precisa e se vai embora sem se deixar afetar por nada que essa loja represente. Assim se comporta essa freguesia religiosa. Consome oração, mas não se dispõe a orar. Consome alegria, mas não se dispõe a construir a alegria do outro. Consome Jesus, mas não se quer comprometer com seu caminho. Consome-se tudo, mas não se abre para a conversão. Transforman-se realidades espirituais em objeto de consumo existencial.
Esta perspectiva consumista se contrapõe ao conceito bíblico de conversão. A conversão traz para a vida de quem é atingido por ela, não somente uma experiência, mais uma relação com Deus, consigo e com o outro capaz de estruturar a vida. A conversão cristã e as implicações dela decorrentes formam o alicerce do ser humano. Esta é pelo menos a perspectiva cristã a cerca da existência humana. Quem busca a conversão nesses termos, encontra a solidez de um encontro.
Neste consumismo religioso, os consumidores são guiados por uma necessidade de satisfação egoísta exatamente análoga à do consumismo pós-moderno. Por ser assim, correm o mesmo risco da apatia e da indiferença religiosa. No fundo, estamos presenciando um deslocamento que vai do sólido para o frágil do concreto para o fugaz.
 No compasso de espera próprio de quem se encontra no centro desse processo cultural chamado pós-modernidade, por isso mesmo com todas as dificuldades de estabelecer um juízo crítico de valor, aguardamos apreensivos, essa constituição de novos sujeitos e coletividades onde se dá a celebração da fé cristã.

Conclusão.
Embora o impacto da Pós-Modernidade na liturgia cristã tenha proporcionado alguns bens, tais como a flexibilização inclusiva, a dinamização da comunicação da Palavra, a autonomia do sujeito e sua postura como quem precisa receber algo – e esses bens devem ser aceitos e cultivados – o impacto negativo, por vezes, eclipsa estes avanços e precisa ser rejeitado, não descartando os elementos positivos, antes, os incorporando a fim de viabilizar com melhor eficácia a comunicação do Evangelho.
Na lógica da funcionalidade e do consumismo a prática litúrgica cristã (sobretudo de traço neopentecostal e carismático) tem se mostrado como uma relação entre consumidores e empreendedores. O lado positivo é que os dois são sujeitos, o dado inaceitável é que o produto-objeto desta relação comercial seja o próprio Deus e suas coisas.

Alessandro Rocha
Doutorando em teologia na PUC – Rio de Janeiro
Pastor auxiliar da Segunda Igreja Batista de Petrópolis

A Erosão do Culto Centrado em Deus

SOLI DEO GLORIA: A Erosão do Culto Centrado em Deus

Onde quer que, na igreja, se tenha perdido a autoridade da Bíblia, onde Cristo tenha sido colocado de lado, o evangelho tenha sido distorcido ou a fé pervertida, sempre foi por uma mesma razão. Nossos interesses substituíram os de Deus e nós estamos fazendo o trabalho dele a nosso modo. A perda da centralidade de Deus na vida da igreja de hoje é comum e lamentável. É essa perda que nos permite transformar o culto em entretenimento, a pregação do evangelho em marketing, o crer em técnica, o ser bom em sentir-nos bem e a fidelidade em ser bem-sucedido. Como resultado, Deus, Cristo e a Bíblia vêm significando muito pouco para nós e têm um peso irrelevante sobre nós.

Deus não existe para satisfazer as ambições humanas, os desejos, os apetites de consumo, ou nossos interesses espirituais particulares. Precisamos nos focalizar em Deus em nossa adoração, e não em satisfazer nossas próprias necessidades. Deus é soberano no culto, não nós. Nossa preocupação precisa estar no reino de Deus, não em nossos próprios impérios, popularidade ou êxito.

Tese 5: Soli Deo Gloria

Reafirmamos
 que, como a salvação é de Deus e realizada por Deus, ela é para a glória de Deus e devemos glorificá-lo sempre. Devemos viver nossa vida inteira perante a face de Deus, sob a autoridade de Deus, e para sua glória somente.

Negamos
 que possamos apropriadamente glorificar a Deus se nosso culto for confundido com entretenimento, se negligenciarmos ou a Lei ou o Evangelho em nossa pregação, ou se permitirmos que o afeiçoamento próprio, a auto-estima e a auto-realização se tornem opções alternativas ao evangelho.

Fonte: Declaração de Cambridge
obs-eu Fernando magalhães,concordo em parte com este pensamento  ficando a cargo do leitor fazer seus próprios comentários.

Métodos inovadores para a liturgia cristã?

Métodos inovadores para a liturgia cristã?
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Segundo registros históricos, o primeiro culto protestante no Brasil fora realizado no dia 10 de março de 1537. A pedido do navegador francês Villegaignon que havia se instalado em terras brasileiras, mais precisamente na Bahia de Guanabara no Rio de Janeiro, o reformador João Calvino enviou uma comitiva de pastores e homens de bom testemunho cristão a fim de colaborar com Villegaignon, que ao chegarem apresentaram a Deus o primeiro culto de louvor e adoração a sua majestade, e pregaram a palavra de Deus em terras brasileiras.

Segundo a história, tempos depois neste mesmo local três deles acabaram por ser martirizados por confessarem e defenderem a fé reformada, o que ficou conhecido como a
Tragédia de Guanabara – o primeiro martírio de cristãos protestantes em terras brasileiras.

472 anos depois da realização do primeiro culto protestante no Brasil, como tem sido a liturgia e os cultos da igreja protestante brasileira? De que forma os evangélicos tem se posicionado em relação ao culto cristão? O crescimento fenomenal do protestantismo em nosso país tem contribuído para a estruturação de uma liturgia centrada em Cristo, ou o tempo tem se encarregado em desconstruir os princípios divinos para o culto cristão segundo as escrituras?

O culto cristão centrado nas escrituras

Escrevendo a igreja em Corinto o apóstolo Paulo muito se esforçou para não transmitir suas próprias opiniões. Foi objetivo ao afirmar que tudo quanto pregava havia de fato recebido do Senhor como orientação para a sua igreja. Conhecedor dos vários problemas que ocorriam em meio aos cristãos daquela região em relação a liturgia do culto cristão ele foi enfático ao declarar “...tudo seja feito para a edificação da igreja.” De acordo com a mesma passagem bíblica, os principais elementos da liturgia do culto cristão deveriam se basear em dois aspectos fundamentais: na revelação das escrituras e na atuação do Espírito Santo.

Em outras palavras,
sob orientação divina outorgada pelo Espírito Santo e dentro dos padrões bíblicos Deus deveria ser adorado por seu povo com louvores, e seus filhos agraciados com sua palavra orientadora, instrutiva e normativa a fim de que suas próprias vidas fossem edificadas na santíssima fé. Assim, tudo aquilo que fugisse destes princípios idealizados pelo próprio Deus em relação ao culto deveriam ser rechaçados, pois além de não reconhecer a sua glória sobre todas as coisas também não possuiria nenhuma virtude para edificar seus filhos na fé. Não passaria de uma simples reunião formalista e sem vida.
E foi assim que a igreja primitiva ultrapassou fronteiras, subverteu impérios e nos alcançou através da sua mensagem. O modelo adotado de fato funcionou como o próprio Deus havia previsto!

Inovação da liturgia

Embora majoritariamente acreditemos na imutabilidade de Deus e de sua palavra, neste último século a igreja tem sido tentada a acreditar que os projetos e padrões de Deus para a igreja primitiva já não são aplicáveis a nossa época, se tornaram obsoletos, ultrapassados.

Com o avanço do secularismo, a igreja dos últimos dias tem tentado se adaptar as “pedidas” da sociedade. Participando de cultos ditos evangélicos, porém antropocêntricos constataremos que o centro da reunião estará sempre na vontade humana e na realização de seus desejos.

Muito se têm falado no incremento de técnicas alternativas com a finalidade de se atrair o maior número de pessoas possível as reuniões. Assim, a cada dia surgem novas programações com padronização semelhante a de grandes eventos culturais, artísticos e políticos onde o administrador litúrgico e seus convidados são as estrelas, os fiéis o publico admirador, e o princípio comum a sensação de se sentir bem. Shows, palestras motivacionais e reuniões sociais são os eventos de maior lotação nas ditas igrejas, formadas por pessoas comprometidas apenas com o entretenimento.

Enquanto isso, igrejas e mais igrejas aceitam cada vez mais a apresentação de “fogo estranho” no altar divino. Reuniões pra lá de descabidas, irreverentes, sem nenhuma ética cristã e extremamente exótica são realizadas sob alegação da direção divina. Nelas seus
pregadores verdadeiros pop-stars do mundo gospel utilizam-se de chavões e textos fora do contexto com a finalidade de contextualizar seus ideais dominatórios e interesseiros.

Como tudo passa amanhã essas mesmas técnicas incrementadas por esses movimentos irão passar, e se fará necessário a remodelação de acordo com os parâmetros do momento.

Inovações comprometidas com a causa do reino

Não se pode negar que há aspectos positivos em relação a recursos modernos e de conhecimentos adquiridos na contemporaneidade em relação ao culto cristão. Assim, os mesmos devem ser utilizados e administrados da forma mais satisfatória possível.
Não acredito que uma boa produção teatral, musical ou coreógrafa fundamentada na palavra de Deus e administrada de forma harmoniosa e ética fira os princípios do culto cristão, no entanto deve centralizar o papel da adoração a Deus e edificação da Igreja de Cristo.
Quando isso não acontece, tenha certeza de que estará apenas assistindo a mais um espetáculo que não transferirá de maneira alguma a honra ao criador, e consequentemente não contribuirá para o crescimento espiritual do crente. Será apenas mais um ajuntamento de pessoas onde o principal objetivo que é de fazer discípulos simplesmente não funcionará.

Renovação da liturgia

Faz-se notório uma renovação da liturgia cristã. E para que isso aconteça, é necessário
um avivamento nos corações dos cristãos. E o caminho do avivamento, ou renovação espiritual começa com oração e disposição em aceitar a vontade de Deus acima de nossos propósitos. Quando de fato aceitarmos o desafio de nos entregarmos ao Senhor sem reservas, nossas atitudes transparecerão nosso desejo de estar em sua presença. Sigamos o modelo dos cristãos pioneiros segundo as escrituras. Que a oração de John L. Williams seja também a nossa: “Senhor, que a nossa preocupação não seja apenas pelo ritual, mas sim pela abertura dos nossos corações!”